1432 capítulos
Medium 9788530976095

Introdução

MOTTA, Manoel Barros da Forense Universitária PDF

Introdução

A questão do crime, a partir da teoria psicanalítica, pode introduzir uma nova perspectiva, renovando a clínica e indicando soluções inéditas para os impasses e problemas atuais do mal-estar na civilização. O crime, não apenas na sua relação com a lei e o simbólico, mas também com o gozo e o real, toca nos dilemas com os quais se depara o sujeito contemporâneo.

A psicanálise introduz na questão do crime um elemento novo: a decifração das motivações inconscientes, que orienta nosso trabalho. Porque a causalidade psíquica está no centro da investigação psicanalítica. Como eixo conceitual desta causalidade está o tríplice registro dos elementos da estrutura: real, simbólico e imaginário.

No entanto, a psicanálise não define personalidades criminosas, uma tipologia do criminoso. Ela não se situa numa classificação geral, mas na particularidade do caso clínico. Através da particularidade do caso, ela interroga o que em cada sujeito o leva a agir. Não há, assim, um criminoso nato nem pulsões criminosas de fundo biológico. Isto vai contra as tendências dos que querem detectar desde a infância quem são os criminosos natos.

Ver todos os capítulos
Medium 9788530976095

CAPÍTULO I – O crime e os três registros - De Lacan à orientação lacaniana de Jacques-Alain Miller

MOTTA, Manoel Barros da Forense Universitária PDF

CAPÍTULO I

O crime e os três registros −

De Lacan à orientação lacaniana de

Jacques-Alain Miller

Poder situar a problemática do crime no quadro dos três registros implica poder retomar os textos clássicos de Lacan sobre a questão da criminologia e, também, sobre os casos clínicos em que passagens ao ato têm um lugar central.

Jacques-Alain Miller formulou esta problemática, inicialmente, no seu curso Pièces detachées, na lição de 2 de fevereiro de 2005. Diz Miller: “os crimes do imaginário, quer dizer, aqueles de que se pode dar conta com o estágio do espelho: os crimes do simbólico que me permitem evocar, por um lapso calculado, a espantosa onda de assassinatos de presidentes e monarcas que assolou a Europa em fins do século XIX e começos do século XX

− uma verdadeira tsunami de assassinatos − e os crimes do real, que são, de certo modo, um misto de simbólico e de imaginário, ou, em todo caso, há elementos desses registros”.

Há que lembrar que uma boa parte da clínica de Lacan é uma clínica dos casos de Freud. No entanto, o caso Aimée, em torno do qual gira sua tese de doutorado, e o artigo “Motivos do crime paranoico”, publicado na revista Le Minotaure, são textos em que um aspecto importante da clínica de Lacan aparece em relação a casos que foram objeto de uma elaboração teórica importante frente a crimes que mobilizaram fortemente a opinião

Ver todos os capítulos
Medium 9788530976095

CAPÍTULO II – O caso Aimée - A letra e o gozo em uma passagem ao ato

MOTTA, Manoel Barros da Forense Universitária PDF

CAPÍTULO II

O caso Aimée −

A letra e o gozo em uma passagem ao ato

Lacan afirma, no seu texto de conclusão de sua tese, que a fecundidade de sua metodologia de pesquisa está fundada no estabelecimento de uma monografia tão exaustiva quanto possível.

Em Freud, suas monografias, como no caso Schreber, vão refinar a psiquiatria com a psicanálise. Em Lacan, ele vai partir da psiquiatria para a psicanálise. Mas a fecundidade heurística do caso

Aimée é que nele há muitos elementos que são suscetíveis de uma releitura, “em reserva”, como observaram alguns comentadores.

Passemos à descrição e à análise do caso.

No dia 18 de março de 1931, às oito horas da noite, a atriz

Huguette ex-Duflos, da Comédie française, uma das atrizes mais apreciadas pelo público parisiense, chegou ao teatro Saint-Georges, onde desempenhava o papel principal, numa peça de Henri

Jeanson: “Tout va bien” (Tudo bem). Ela é abordada, na porta de entrada, por uma desconhecida que lhe fez a pergunta: “Você é de fato Madame Z?” (Lacan a chama no texto Madame Z, sem revelar o nome da atriz de Koenigsmark).

Ver todos os capítulos
Medium 9788530976095

CAPÍTULO III – Landru - Um serial killer na belle époque

MOTTA, Manoel Barros da Forense Universitária PDF

CAPÍTULO III

Landru − Um serial killer na belle époque

3.1. A LEITURA DE MARIE LAURE SUSINI: O AUTOR DO

“CRIME PERVERSO”

Marie Laure Susini e Francesca Biagi-Chai analisaram do ponto de vista lacaniano os crimes de Landru. Uma pretendeu elaborar uma categoria clínica, “a do autor do crime perverso”.

Biagi-Chai vai interrogar particularmente a psicose de Landru e seu caso a partir da particularidade de um real sem lei, que se inscreve na sua história.

Susini, ao propor a primeira categoria clínica, analisa o crime do ponto de vista da perversão. Landru vai integrar uma série de que fazem parte Gilles de Rais, Sade, Jack o estripador e ainda outros casos. Biagi-Chai analisa principalmente Landru, mas também Pierre Rivière, que tratamos à parte, confrontando sua leitura com a de Roudinesco, além de Donato Bilancia.

No sintagma “autor do crime perverso”, Susini refere-se ao ato, numa leitura que lhe é particular. Trata-se de um crime cujo traço comum é do “provocarem a indignação”.1 Ao passarem, observa ela, a multidão grita “morra”. Na série, como emblemáticos estão Gilles de Rais e Sade. Gilles de Rais, cujo processo eclesiástico tornou-se um grande espetáculo. Susini analisa Sade também nessa categoria, a partir da biografia de Pauvert (2013)

Ver todos os capítulos
Medium 9788530976095

CAPÍTULO V – Um crime do imaginário – O duplo crime das irmãs Papin

MOTTA, Manoel Barros da Forense Universitária PDF

CAPÍTULO V

Um crime do imaginário –

O duplo crime das irmãs Papin

Crime algum feito na vida cotidiana teve impacto tão forte e tão amplo na França, como a passagem ao ato terrível realizada por

Christine e Léa Papin, duas criadas de uma família burguesa do interior, da província, na cidade de Le Mans, em 3 de fevereiro de 1933.

Lacan situa o caso na sua dimensão trágica: “lembramo-nos das circunstâncias horríveis do massacre de Le Mans e da emoção que provocou na consciência do público”. É assim que inicia

Lacan seu importante estudo, que, inicialmente, foi publicado no terceiro número de Le Minotaure, “Motivos do crime paranoico”,1 a revista dos surrealistas, a quem muito interessou também, entre outros, Paul Éluard e Benjamin Peret, além de Man Ray. Mais tarde, ele será acrescido com outros estudos sobre a paranoia, em sua tese. O crime irá tocar o movimento existencialista, objeto de reflexão de Simone de Beauvoir e de Jean Paul Sartre. Francis Dupré, pseudônimo de Jean Allouch, vai realizar um importante dossiê, acompanhado de uma análise, em que vai pesquisar toda a documentação e antecedentes do caso, assim como os acontecimentos do processo que acompanham o destino de Christine e Léa Papin.

Ver todos os capítulos

Visualizar todos os capítulos