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Capítulo 10 - RELIGIÃO COMO SISTEMA PRIVILEGIADO DE CONSTITUIÇÃO DE SENTIDO E RESSIGNIFICAÇÃO DO SOFRIMENTO

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Religião, psicopatologia e saúde mental

RELIGIÃO COMO SISTEMA

PRIVILEGIADO DE CONSTITUIÇÃO

DE SENTIDO E RESSIGNIFICAÇÃO

DO SOFRIMENTO

Aprendemos com uma longa tradição155 retomada para a modernidade por autores como Schleiermacher, Weber, Ricoeur e Gadamer,156 e desenvolvida para os fenômenos religiosos por contemporâneos como Geertz (e, em certa medida, Berger), que a religião se inscreve no longo e interminável capítulo da história humana de dar sentido à existência bruta, de tornar o texto da vida pelo menos legível e passível de tradução para a experiência cotidiana. Entre nós, Carlos Rodrigues Brandão fala, nessa linha, de “sistemas religiosos de sentido” como referência a este universo multiforme e cada vez mais plural que é a religiosidade no Brasil.

Assim, de diferentes formas, a tradição hermenêutica tem influenciado bastante o horizonte teórico no qual se busca compreender a experiência religiosa. A hermenêutica, no sentido tradicional, referia-se à arte da tradução e da interpretação de textos (sagrados primeiro, profanos depois) de outra língua, de outro contexto histórico-social (ou de um corpus geral para situações específicas, como no caso da hermenêutica jurídica), trazendo-os à luz, à compreensão. Para a hermenêutica tradicional colocou-se a questão da tradução, e traduzir um texto exige a

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Capítulo 8 - REFLEXÕES SOBRE ESTUDOS EMPÍRICOS

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REFLEXÕES SOBRE

ESTUDOS EMPÍRICOS

Neste capítulo, serão feitas, inicialmente, reflexões sobre trabalhos empíricos realizados pelo grupo de pesquisa coordenado por mim, na UNICAMP, grupo esse que investigou, nos últimos 15 anos, diversas relações entre saúde, transtorno mental e religião. Alguns trabalhos empíricos desse grupo estão disponíveis no endereço eletrônico: www.artmed.com.br. Posteriormente (Capítulos 9, 10 e 11), busco refletir de forma um pouco mais ampla sobre o campo de investigação “religião e saúde mental”, tanto a partir de alguns autores já apresentados na Parte I deste livro como em relação ao panorama sociocultural contemporâneo.

LIMITAÇÕES DE ESTUDOS EMPÍRICOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE MENTAL

Cabe aqui assinalar algumas das principais limitações dos estudos científicos empreendidos na linha de pesquisa “religião e saúde mental”, particularmente dos nossos próprios estudos. Assim como em outras pesquisas nessa área, em nossas investigações buscamos identificar algumas relações específicas entre religião, saúde e transtornos mentais, porém, ao executar os recortes que constituíram os objetos empíricos, estabeleceu-se determinado contorno para a religião e para o sofrimento mental, assim como se definiram amostras e instrumentos de coleta de dados. Todo esse processo, deve-se reconhecer, estabelece limites, determina um alcance específico e reduz necessariamente a abrangência dos resultados e das interpretações.

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Capítulo 3 - A PSICOLOGIA DA RELIGIÃO

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A PSICOLOGIA DA RELIGIÃO

Não apenas no interior da psicanálise ou por ela inspirados, diversos autores têm buscado a análise psicológica da religião lançando mão de outros referenciais teóricos. Não há espaço, aqui, para cobrir a vasta literatura concernente. Em nosso meio, a psicologia da religião foi revista recentemente de forma cuidadosa por

Edênio Valle (1998).

Pode-se divisar, entretanto, dois grandes campos, o da psicologia européia, mais marcado pelas correntes fenomenológicas e existenciais, e o da psicologia norteamericana, de forte extração empírica. Esta última, desde o início, deu maior ênfase

às possíveis “dimensões da experiência religiosa”, à conversão e às “atitudes” dos sujeitos envolvidos, muitas vezes com perspectivas relacionadas à psicologia social.

Na Europa, a tradição hermenêutica, fenomenológica e psicanalítica influenciou autores como Girgensohn (1930) e Külpe, na Alemanha; Vergote (1966), na

Bélgica; Penido, na França; e Fizzotti (1992), na Itália. Eles enfatizaram perspectivas originais com base em métodos introspectivos, na psicanálise e na especificidade psicológica da vida religiosa (Quadro 3.1). Apesar das importantes contribuições européias, a psicologia da religião desenvolveu-se de forma mais vigorosa no meio anglo-saxão, em particular nos Estados Unidos.

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Capítulo 11 - CONCLUSÕES

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CONCLUSÕES

Esforcei-me, ao longo desses anos de pesquisa, para compatibilizar duas perspectivas difíceis, talvez impossíveis de serem compatibilizadas: a pesquisa médica e epidemiológica e as dimensões da vida religiosa e do sofrimento pessoal. À pergunta: “afinal, a religião faz bem ou faz mal à saúde mental”?, eu tratei de buscar respostas, mesmo sabendo que talvez seja uma pergunta imperfeita, ou malformulada, pois envolve consideráveis simplificações.

Apesar das ressalvas a tais dificuldades metodológicas, a religião, na maior parte das vezes, parece fazer bem à saúde. Parece dificultar que as pessoas se tornem problematicamente envolvidas ou dependentes de bebidas alcoólicas e outras substâncias, assim como parece oferecer um alento a quem sofre de dolorosas experiências depressivas, ansiosas ou mesmo psicóticas. Uma semana após eu ter falado algo nessa linha em um recente programa de televisão, um paciente meu me retrucou: “O senhor falou bonito na TV, doutor Paulo, gostei. Mas isso tudo que o senhor disse não é certo para mim. Para mim, a religião fez um mal terrível...” (a seguir tentou me explicar por que a religião lhe fez muito mal). De outros pacientes, sobretudo de familiares, não tem sido incomum ouvir “[...] Doutor, quando ela começa a falar muito de religião é aí então que eu sei que a coisa vai desandar”.

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Capítulo 7 - ESTUDOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE MENTAL REALIZADOS NO BRASIL

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ESTUDOS SOBRE RELIGIÃO E SAÚDE

MENTAL REALIZADOS NO BRASIL

ESTUDOS DE RELEVÂNCIA HISTÓRICA

No Brasil, desde a virada do século XIX para o XX, diversos autores têm estudado a religiosidade nas suas relações com o sofrimento individual e os transtornos mentais. Não há espaço, seguramente, para uma revisão completa da produção sobre o tema realizada por autores brasileiros. Serão mencionados apenas alguns trabalhos e autores a fim de assinalar algumas das linhas de investigação mais significativas.121

Raimundo Nina Rodrigues122 foi, possivelmente, um dos primeiros a estudar de forma sistemática a religiosidade dos negros e pardos, assim como as epidemias de “loucura coletiva” (ele falava em “epidemia vesânica de caráter religioso”) em nosso país. O valor de seu trabalho123 foi, sobretudo, etnográfico, pois descreveu minuciosamente os cultos, as práticas e as entidades sagradas dos africanos e seus descendentes. Da mesma forma, descreveu tais “epidemias” de “loucura cole-

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O professor de medicina da Universidade do Estado do Amazonas João Bosco Botelho publicou, recentemente, um livro dedicado à relação entre religião e medicina na história, dando ênfase a tal relação na história do Brasil e nas inter-relações entre catolicismo, medicina oficial e popular. (BOTELHO, J. B. Medicina e religião: conflito de competência. Manaus:

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